sexta-feira, 13 de março de 2009

ARTE ROCOCÓ

PREFEITURA DE SÃO GONÇALO
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO

HISTORIANDO AS ARTES III

ARTE ROCOCÓ

O rococó não produziu uma teoria estética própria, orgânica. Nem tão pouco arranjou um nome. O que hoje tem foi-lhe dado, por uma larga experiência, pelos seus detratores, que deformaram num sentido depreciativo e caricatural o termo rocaille, palavra francesa usada para indicar o principal motivo ornamental das grutas então em moda, as conchas.
A sua delimitação é, com muita freqüência, estabelecida em termos de gosto: sublinha-se como o rococó visava a graça, a elegância, o requinte, a alegria, o brincar, o exuberante. De uma maneira mais filosófica procura-se fazer a distinção entre o rococó e o barroco, que utilizaram um aparelho formal e decorativo para muitos objetivos diferentes e que muitas vezes estiveram presentes, ao mesmo tempo, no mesmo país, até na mesma obra, notando-se como o rococó procurava o bellum, ou seja, o agradável, o requintado, o desenvolto, sutilmente sensual, enquanto que o barroco se inclinava para o pulchrum, isto é, para o imponente, o sublime, o palaciano, o grandiloquente.
Na arquitetura, o freqüente abandono das ordens clássicas ou, pelo menos, das regras de ferro que regiam o seu uso; a diferenciação dos edifícios conforme as suas funções; o nascimento do conceito do “interior”, como definição unitária, indiferente ao resto do edifício, de um ambiente, da ornamentação geral em favor dos pormenores minuciosos.
Na escultura e na pintura, o abandono dos temas grandiosos de proporções majestosas, em benefício de temas mais “ligeiros” e agradáveis, de pequenas dimensões e requintados, de cores suaves e etéreas.
Foi a França quem iniciou o processo. Mas foi, pelo menos na arquitetura, a Alemanha que produziu o maior número de realizações, alargando também o estilo – que no país de origem se limitou às moradias senhoriais à arquitetura monumental, civil e religiosa.
Mas não foram só a Alemanha e a França as pátrias únicas do estilo: os outros países juntaram a estes expoentes uma constelação de florescimentos menores.
É incontestável que se pode ver no novo estilo que começou a afirmar-se em França no princípio dos séculos XVIII uma reação contra o passado recente.
Sentia-se a necessidade, depois de tanta palaciana e austera grandeza, de uma maior intimidade, leveza e conforto. O gosto tende a preferir o requinte aristocrático à majestade real.
Um dos elementos centrais do movimento, aquele que acabará por dar o nome à sua parte central, é precisamente um elemento decorativo, o rocaille, uma ornamentação com motivos e formas derivados de conchas de vieiras.
As fachadas conheceram um decidido processo de alisamento e achatamento. Tudo quanto criava um forte contraste foi abolido.
Foi eliminada ou reduzida ao máximo possível a presença de esculturas monumentais, limitando-as à ornamentação de jardins.
A elaboração do interior diverge da do exterior. Enquanto que na fachada se assiste a uma radical diminuição dos ornamentos, no interior, o ponto de partida é uma riquíssima ornamentação. O novo estilo, em concordância com os seus próprios princípios, dá origem a uma substancial independência entre o exterior e o interior. As duas estruturas não possuem, como ponto de contato, senão as amplas e numerosas aberturas que rasgam a fachada.
Esta ornamentação é inspirada no rocaille, isto é, no motivo das conchas de vieiras. Os elementos de partida são poucos: a forma ondulada das conchas, a curva em S, a curva em C, o arco quebrado numa série de curvas. Mas as variações que os artistas do rococó saberiam dar-lhes são inumeráveis, variadíssimas. E não só: as formas criadas com estes motivos viriam a ser usadas a todas as escalas pelos artistas da época: tanto na ornamentação miniatural do objeto, como da decoração do conjunto arquitetônico. E será isto que constituirá um dos elementos característicos do estilo.
Também a iluminação é profundamente modificada, em relação à época precedente. À janela de sacada, característica do barroco, prefere-se agora a porta-janela. Deste modo, entra muito mais luz, e, ao mesmo tempo evita-se que a janela surja como um “buraco” na parede, transformando-a pelo contrário, num harmonioso vão. Mas, acima de tudo, permite a entrada de uma luz rasante, e que permite a eliminação de ângulos mortos, não iluminados: uma coisa que o rococó tem enorme horror.
Esta luz clara, difusa, vai então iluminar paredes brancas: a mais clara e luminosa de todas as cores. A isto acrescenta-se o tênue esbatido de outras tintas, numa sinfonia sempre suave. Virá também a moda, um pouco mais tarde, de substituir o branco por outras cores, mas muitíssimo tênues e esfumadas: azul claro, amarelo claro, rosa, às quais se unem também, mas parcimoniosamente, o ouro e a prata, para sublinhar os ornamentos e os relevos.
A isto junta-se o uso, e por vezes o abuso, dos grandes espelhos. Já eram usados na época precedente e a Galerie dês Glacês de Versalhes é disto o exemplo mais flagrante. Mas agora tornam-se num elemento essencial de todos os interiores. Multiplicam-se e refratam-se as luzes e realçam-lhe os efeitos. De resto, integram-se no gosto mais geral da época por tudo que é brilhante: móveis de superfície brunidas e polidas a cera, sedas luzidias e veludos para os vestidos e os estofos, o esplendor perolífero das porcelanas, dos vernizes e das incrustações de madrepérola, o esplendor dos brilhantes, usados a toda a hora e a qualquer pretexto.
Evidentemente, trata-se da mesma maneira a iluminação superficial. Esta é sempre dada por velas de cera, de luz suave e cálida, postas a meia altura para não ferir os olhos e para não criar contrastes de luz sobre os rostos. A disposição clássica compreende numerosos appliques nas paredes, ou grandes lustres centrais. E naturalmente, os lustres preferidos são os venezianos, de pingentes de vidro que refratam a luz das velas.
O rococó não gosta nada de elementos pesadões. É por isso que se renuncia ao uso, típico do barroco, de grandes pinturas em trompe l’oeil.
Este estilo dominou a França na primeira metade do século XVIII, com gradações que vão da fase primitiva da Regência ao apogeu do rocaille e à fase tardia do estilo Pompadour: respectivamente, entre 1715 e 1730, entre 1730 e cerca de 1745 e entre esta última data e 1756. Mas bem depressa se espalhou também para além das fronteiras francesas. O seu sucesso foi, porém, notavelmente diverso de país para país. E isto devido ao seu próprio e peculiar caráter.
Dadas as suas origens e características, o rococó não foi um estilo favorável à escultura monumental. Tanto nos interiores como nos exteriores, a decoração plástica como ornamento ou como parte integrante da arquitetura (estátuas, cariátides, atlantes) recobre a quase totalidade das superfícies. Os únicos locais em que se manterá o uso de composições escultóricas de grande porte serão os jardins.
Atualmente, não era possível, nem foi desejada, a completa desaparição do gênero. Apareceram sempre imponentes esculturas nos edifícios oficiais, ou a ornamentar as grandes praças nas cidades assinalavam as freqüentes iniciativas urbanísticas da época.
Se desprezou, ou, pelo menos, descurou a plástica de grandes dimensões, o rococó valorizou muitíssimo a de menor escala, bastante mais consoante com a sua arquitetura e as suas salas. E também muito mais fácil de transformar segundo o novo espírito: sofisticado, galante. Realmente, modificam-se os temas da escultura: Pan, deus pastoril, e Vênus, deusa da beleza e da graça, substituem as divindades maiores utilizadas nas alegorias da época precedente. E assim todos os seus temas “menores”, descomprometidos, como diríamos hoje, triunfam sobre os “sérios”.
Para dizer a verdade, esta é a tendência francesa. Na Alemanha, os cânones do rococó (graça formal, leveza de tratamento, graciosidade nas poses e atitudes) foram igualmente aplicados na escultura religiosa. Aqui, será preferido este gênero ao profano, de inspiração mitológica.
Um outro “gênero” que continuou a ser muito apreciado foi o retrato de meio corpo, exemplo clássico daquela plasticidade “móvel” e a que se confiava a tarefa de personalizar e enriquecer o mobiliário. Com a mesma finalidade, o retrato passou a ser ladeado por um grande mostruário de pequenas esculturas de diversos formatos e de diversos materiais, mas de temas amavelmente graciosos, sutilmente sensuais. Por exemplo, o tema da jovem mulher, ou da adolescente, que brinca com um cachorrinho, mantido no ar com os seus próprios pés, espalhou-se largamente na escultura da época.
O material favorito é, para a escultura monumental, o chumbo (e o bronze, devido à sua qualidade representativa). Isto principalmente no que respeita as estátuas dos jardins e das fontes, nas quais o cair e movimentação da água se casa bem com a sua falta de brilho. Quanto ao retrato, domina o mármore. Este, na época do rococó, é tratado de maneira a retirar-lhe peso aligeiramento da superfície, até lhe fazer assumir a macieza (e o brilho) da seda. Nas esculturas menores, utilizam-se o chumbo, a argila e o gesso. Na Alemanha, com muita freqüência, a madeira. Mais tarde, em França, afirmar-se-á o biscuit, ou seja, um tipo especial de porcelana, cozida por duas vezes e sem vidrado.
Aqui, chegamos ao ponto fulcral. Porque o verdadeiro, o inato material do rococó é a porcelana. O seu uso é de tal forma ligado ao estilo que já houve quem chegasse a justificar com ela o próprio nascimento do movimento rococó, ou, ao menos, das suas formas. Claro que se trata de um exagero. Mas a verdade é que não foi por acaso que o rococó descobriu a porcelana (graças ao alemão Böttger, na primeira década do século XVIII), invenção chinesa que até aquele momento a Europa se mostrara incapaz de imitar. Ela correspondia ao gosto, próprio do novo estilo, pelos objetos pequenos, graciosos, frágeis, elaborados e requintados. E punha à disposição da escultura de pequenas dimensões um material muito seu, libertando-a do emprego dos mesmos materiais utilizados nas esculturas maiores. Com ele, a pequenina escultura podia tornar-se em algo de fino em si mesmo, num brinquedinho, e não numa réplica em pequena escala de um tema monumental.
O sucesso do novo material foi enorme. À inicial manufatura de Meissen bem depressa se juntaram outras, as de Nymphenburg, de Berlim, de Capodimonte, de Chelsea, do Buen Retiro, de Sèvres, de Viena. Cada corte tinha a sua e cada uma delas produzia um tipo característico de porcelana, com temas galantes, requintados, que talvez sejam os melhores representantes do rococó e do seu gosto sem fronteiras. Nestes ateliers, trabalharam os mais geniais escultores da época. Ao princípio (e sobretudo na produção de Meissen), usaram-se as cores vivas, com combinações arrojadas. Mas depressa se afirmaram paletas mais esbatidas, tons delicados ou simplesmente o branco, uma maior graça, sobriedade e ligeireza.
Aplicou-se às porcelanas, como é natural, o grande amor que na época do rococó se nutria pelas chinoiseries, pelos aspectos exóticos e pela representação de assuntos e motivos não europeus. Tendência ativa a todos os níveis, tanto na arquitetura como na ornamentação miniatural, mas evidentemente mais fácil de aplicar nas realizações menores e num material que era de origem, em si mesmo, exótico.
A grande produção de porcelanas era, como já dissemos, de “côrte”, ou seja, por encomenda e com temas aristocráticos. Mas também se afirmou ao lado desta uma farta produção de cerâmica de gosto populista, que encontrou grande aceitação nos países meridionais (sobretudo em Itália) e foi aplicada, tipicamente, na arte sacra, em especial em presépios. Foi ainda na Itália que a ornamentação em estuque alcançou o maior apogeu.
Mas vale a pena notar como mesmo a ornamentação em estuque, tradicionalmente confiada a companhias de artesãos que viajavam de terra em terra, foi um dos maiores veículos, em toda a Europa, do gosto rococó e um dos principais fatores determinantes de que esse gosto fosse muito mais nivelado nesta arte do que o foi nas artes maiores, a arquitetura e a pintura.
Se do panorama das realizações passarmos à temática formal, verificaremos que também na escultura, como já acontecera na arquitetura, uma transbordante variedade de efeitos deriva de uma reduzidíssima gama de temas inspiradores. As linhas mestras são as do rocaille: a curva em S, a curva em C. É sobretudo a linha em S que se aplica constantemente e com infinita doçura, requinte e fluidez. Mas uma escultura rococó mostra uma acentuação no ritmo das curvas que a identifica. A curvatura também é, tipicamente, bastante acentuada, a ponto de chamar sobre si as farpas dos críticos que vieram depois.
Pelo contrário, trata-se de estátuas sinuosas, infinitamente desenvoltas, quase dançando. Por vezes, caprichosas. Freqüentemente maliciosas. A pose pode ser lânguida, mas é sempre medida, espontânea ou tão elegante que não trai o quão estudada foi. A atitude cortesã é, por via de regra, predominante. Diferem, por vezes, como já acentuamos, os temas. Em França, de acordo com a origem e o desenvolvimento profano do rococó, a escultura é, na sua maior parte, mitológica, com preferência pelos aspectos menores da mitologia. Nos países de língua alemã, e sobretudo naqueles da Alemanha meridional, apresentam-se também temas religiosos. Por outro lado, sem renunciar ao espírito, muito mais que transcendente, do novo estilo. O resultado foi “um contraste entre o tema e a forma galante” com que o próprio assunto era tratado: e era mesmo sobre este contraste que insistiam os artistas, fazendo com que ele se tornasse o ponto fulcral das suas criações.
Outras características deverão ser ao menos afloradas. A teatralidade do novo estilo, por exemplo. Ou seja, em muitas configurações, um recordar, e mesmo uma abordagem do mundo do teatro. Não só pela recuperação dos personagens característicos do teatro, como também pela utilização de artifícios teatrais.
A majestade e o dinamismo do barroco começavam a dar lugar à agilidade, ao gracioso jogo de linhas e de superfícies dos novos tempos.
Na decoração dos edifícios, os grandes frescos em trompe l’oeil desapareceram. De ora em diante, a presença da pintura nos edifícios ficará circunscrita às grandes telas inseridas nos panneaux, ou nas lunetas, como elementos estáveis. E também às pequenas telas de cavalete, isoladas ou recolhidas nos cabinets, nas pequenas galerias especiais, como elementos móveis dispostos conforme o gosto dos seus proprietários. Os “gêneros” em voga também mudaram. Desenvolviam-se outros novos, até então inexistentes. Outros ainda modificavam-se e eram executados segundo novos métodos.
Uma das invenções é a da fête galante, do idílio festivo e aristocrático-pastoril, na qual sobressai o gênio pictórico do rococó inicial. Gênero já existente, mas agora amplamente revalorizado é o quadro paisagístico a “vista”. Um gênero já há longo tempo usado, mas agora profundamente modificado na sua expressão e na maneira como é executado, é o retrato. Uma época intimista e individualista como o rococó fará dele um dos seus tipos favoritos, numa vasta gama de expressões: do retrato ágil e coloristicamente festivo, até ao clássico, ao retrato em vestes históricas ou historicizantes, ao sereno e “burguês”, aos cálidos e festivos aos apologéticos, aos sfumati e sensíveis, aos retratos de chave psicológica.
No retrato (mas não apenas no retrato), será muito bem acolhido o pastel, técnica especial de pintura. A meio caminho entre o desenho e a pintura, com resultados ao mesmo tempo vivamente impressionísticos e (devido aos tons esbatidos da cor) singularmente artificiais, estilizados, semelhantes aos de uma porcelana colorida, o pastel é, tal como a porcelana, uma técnica artística o mais coerente possível com o rococó.
A simbologia também muda. Os grandes temas, os dos mestres, os conteúdos palacianos, cedem o terreno a assuntos mais superficiais e alegres. As divindades menores, ninfas, sátiros, náiades (ninfas dos rios e das fontes), bacantes, substituem Júpiter, Juno e Apolo. Os mesmos coloridos e ornamentos típicos da divindade marinha tornam-se nos mais utilizados para os acordos cromáticos e os repertórios ornamentais: o rosa das conchas e o branco da madrepérola, o azul do mar e o branco da espuma, composições que seguem o ritmo da ligeireza das ondas, ornamentações inspiradas em conchas e em corais.
O divertimento é um dos elementos essenciais, fundamentais, do rococó. O divertimento nas formas, no amor, nas relações humanas. É também o divertimento na sua essência. E isto desencadeou a aproximação ao mundo dos adolescentes e, desse modo, a simpatia com que esse mundo é sempre olhado, retratado, até mesmo imitado. Um outro aspecto, igualmente fundamental, é o da ornamentação exuberante, devoradora, inexaurível tendência decorativa que é o motor de todo o estilo. Torna-se comum, o “quadro sem molduras”, delimitado por um sempre crescente entrelaçamento de ornamentação rocaille. Até que elas, pouco a pouco, acabaram por se tornar em todo o quadro, reduzido a apresentar a ornamentação: ornamento e objeto, ao mesmo tempo.
A esta visão de conjunto, cada país acrescenta toques e enriquecimentos particulares. A França, centro impulsionador do estilo na pintura como nas outras artes, talvez seja, neste período, a nação mais rica de pintores talentosos.

Fonte:

Ø CONTI, Flávio. Como reconhecer a arte Rococó. Livraria Martins Fontes Editora Ltda. S.P

Um comentário:

pipa disse...

está fantástico este seu texto sobre o mais maravilhoso período da historia de arte.